Posse do Presidente Benedito Cabral

A Academia Paulistana Maçônica de Letras realizou sessão solene de posse do Presidente Benedito Cabral, no dia 16 de julho, às 10 horas, na Avenida Paulista, 2001 - 13º andar, em São Paulo.
Almoço de Confraternização no Restaurante Picchi, Rua Oscar Freire, 533.

Posse Novos Acadêmicos

Álbum de Fotos do evento em comemoração aos 17 anos de fundação da Academia Paulistana Maçônica de Letras e da posse dos acadêmicos Luiz Flávio Borges D'Urso e José Maria Dias Neto.
Para aumentar a imagem, clicar na foto.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

De que vida falamos?...

De que vida falamos? Do eco repetido das notícias nefastas e da devastação da esperança no Oriente médio? De que vida realmente falamos? Do eco ... eco ... eco repetido à exaustão, renovado, insistido, reproduzido como velho disco de vinil riscado, a repetir-se abulicamente esquecido, respondendo ao infinito na mesmice vibratória? De que vida falamos? Da eterna marcha marcial cadenciada, funesta e uniforme dos esquadrões romanos? Dos foguetes ricocheteando sobre cabeças humanas ou da incrível convicção dos “homens bomba” que se matam e matam inocentes por lealdade à fé e ao amor divino? Do massacre da irônica ”Praça da Celeste Paz”? Ou o da praça de touros de Sevilha? Ou do episódio de wounded knee, de desgraçada memória? Correm os séculos e o mesmo arcaico som cadenciado e repetido, a marcar o rumo da tragédia, da barbárie, da obnubilação do espírito e da razão transcendente, a mera história a relatar objetiva e abulicamente a pobre realidade da câmara lenta evolutiva do espírito humano, a preguiçosa cadência no repetido e mesmíssimo eco dos egos, vaidades, projeções políticas, interêsses vitais, sonhos pátrios mirabolantes, e planos “redentores” de todas as épocas invariàvelmente, desde Sargão, de sumérios, babilônicos, gregos, troianos, romanos e Napoleão? . . . Das ordas, crematórios fumegantes e nauseabundos do nazismo hitleriano? E não falemos das Guerras dos cem anos, dos trinta anos, da dos 6 dias, das de nem sei de quantos mais dias, da das Malvinas, dos incomensuráveis e permanentes cheiros de latrinas, das irrecusáveis “Razões de Estado” e da guerra do Paraguay, para não tornar enfadonho e muito perto de nós todo o dantesco histórico e, muito longo o ecoar atordoante dos ecos intermináveis do nefasto, das diásporas ou dos holocaustos. Pobre histórico humano de indigna civilização, que não aprende com as hecatombes que provoca, que não consegue encarrilhar na cultura autêntica da Paz, quando a aspira afinal humanisticamente, mas só consegue lutar fratricidamente para impô-la, sem jamais portanto usufruí-la com perenidade. Como se a Paz pudesse ser imposta, se não for devida, religiosa e intimamente cultivada e expressa no comportamento diário do animalesco humano. A realidade parece ser de que a guerra é principalmente o que define a sua natureza e não a Paz. Que contra-senso a ressaltar a vetusta filosofia dos opostos do pré-socrático Heráclito, em que a discórdia era a condição básica do mundo natural, em que tudo estava em movimento e mudança contínuos.

Que sons são esses que se repercutem no ar, trespassam barreiras, olhos e ouvidos, intensa e permanentemente, cujo eco incessante nos chega de tão longe, cadenciada e repetitivamente, repleto de emoções vibrantes, atravessando espaços, séculos, milénios, incontáveis gerações, envolvendo vidas infinitas, profusamente submissas e dóceis à cadência apaixonante, empolgante, comovente, matematicamente precisa, vibrante, ao som delirante das fanfarras, das marchas, do uníssono som das trombetas de Jericó, ao rufar dos tambores e cânticos guerreiros, do compasso cadenciado e marcial das pesadas, grotescas e ferradas botas de couro rústico em passos bem marcados, retumbantes, belicosos, de sanguinolentas, reais ou pretensas glórias e heróicismos ? . . .

Que eco mais constante, interminável, permanente e marcante na história longa e vasta, nem sempre, ou quase sempre, nada edificante!... Que eco mais cheio de nuances e gritos lancinantes de dor, horror, paixão, vitória ou derrota! . . . Ecoam em jogo eterno constante todas as dualidades, radicalidades, ambigüidades, paixões e ódios, em busca de afirmação e múltiplas verdades, em cada coração, em cada sentença, em cada lado das contendas, em cada ego, cada vez mais impedernido ! . . .

De que vida falamos? Da superação da barbárie, da fome, da injustiça, da opressão? Da sedimentação e expansão da cultura ?; da construção civilizante?; da vitória da razão inteligente, transcendente sobre a matéria aprisionada, que apenas titubeantemente se assoma à consciência de massas dependentes e vítimas de seus próprios votos, intenções, comportamentos frustrantes e decepcionantes de corruptos governantes e TVs. contemporizantes, imbecilizantes?; da obediência disciplinada, sem crítica, sem análise individual, apenas cega, incondicional, da forma que nem Deus assim exige, mas massa constituída sempre ególatra, ignorante, altaneira e empolgada por ritos, ritmos e cadências de mistérios ancestrais, admiradora sem o saber dos métodos, arrogâncias e anais de Sargão e Nabucodonosor, dos mitos, entusiasmos epidérmicos e valores que pululam nosso espírito e nossas mentes, nossos jornais, revistas, escolas, academias, universidades, esquinas, becos e ruelas, sem discernimento, sem qualquer resquício de altruísmo, em cujas memórias genéticas e eletrônicas, permanecem latentes e atavicamente as raízes mais recônditas de nossa história neurônica, adormecidas massas abúlicas, fechadas ao essencial do espírito, prestes a despertar sempre com sub-reptícias, incontidas e deletéreas explosões de total inconsciência desvairada, que tudo aprovam e logo reprovam, que tudo atraem e logo repudiam, que tudo assentem mesmo com acinte, como se tudo fosse ilimitada explosão de alegria e desfile carnavalesco, um eterno oba, oba, como se tudo fosse simplesmente questão de moda a imitar e a seguir, sem necessidade de interiorização pessoal consciente, em busca ou afirmação de sentimento, do sentido humano evolutivo do espírito, da razão pragmática e da opinião definitória, comprometida, amadurecida e individualizada, como se tudo fosse eterna dependência de um destino misterioso, de um momento, variação, sorte ou azar do clima, do humor, amor ou desamor, gosto ou desgosto, ética ou estética, ódio ou ciúme, tática ou estratégia, acerto ou desacerto, simplória confirmação ou condescendência por falta de “tecnologia específica” ou treinamento oportuno, do momento ou segmento para a vida plena, livre, humana, participativa, contribuinte, digna e responsável . . .

De que vida falamos? Se da Paz não conhecemos a perenidade! Se, sendo a Paz tão essencial à felicidade e à dignidade humanas, ela continua a não depender de nós, que não sentimos nenhuma responsabilidade pessoal e direta por isso, pois depois de tantos milénios e documentação gritantemente dantesca, espantosa e incandescente, a partir dos primórdios do alvor da humanidade, ainda não sabemos nem aprendemos a respeitá-la conspicuamente, a construí-la e estabelecê-la em plenitude e perenidade! Se, ainda os teólogos de Deus, preferem perscrutar e acreditar, que Deus em Sua bendita e plena sabedoria, continua a escrever direito e a estruturar o bem por linhas tortas, um maniqueísmo cômodo sem responsabilizar-nos principalmente a usar nossos braços, nossas mentes, nossos corações, nossa sensibilidade, nossa honestidade, nosso intelecto, nossas ações, o imenso potencial vocacional em um corpo criado em perfeição estética e tecnológica, templo de perfeição para exercer o bem, nossa responsabilidade, nossa percepção inteligente, nossa vontade e capacidade de superação, nosso dever, nossa dignidade, nossa ação direta, individual, disposta e decidida, nosso amor sincero, honesto, puro e verdadeiro, nunca jamais fanático ou sectário, como instrumentos maravilhosos à Sua inteira, Soberana disposição, no alcance dos Seus bondosos, amorosos, diáfanos, redentores e feéricos desígnios. . .

De que vida falamos ? Se mal balbuciar sabemos e tão deficientemente pronunciamos a palavra balsâmica de amor que ansiamos, a qual também dizê-la a quem amamos, bem a negamos, tão covarde e egoisticamente e, ao altruísmo amoroso renegamos, se a falar sinceramente “Eu Amo,” a Deus, à natureza, à humanidade, aos meus amigos, à família, à sanidade da vida plena, livre e responsável, definitivamente renunciamos! E não o exemplificamos !!! E não falemos de nossa maior dificuldade em dialogar com o perdão ! . . .

De que vida falamos? Se não nos apercebemos que ao não dizer ou não poder dizer com alegria “Eu Amo e exemplifico na ação”, do significado do amor nos afastamos, e assim da Paz e da vida, pois sua essência e fruição só no amor se vivenciam, e todo o bem, Graça e promessa afável, cordial e humana, de nós se distancia, e, porque a paz e o bem e o amor automaticamente de nós se distanciam, dessa suprema Graça abdicamos, e só passamos portanto a saber e poder realizar o que objetiva ou subjetivamente detestávelmente odiamos, todo o oposto a que aspiramos. Cresce então incontrolavelmente, por ego inculto e desgraçado o que só em cálculo e pretensão exercitamos, na aparência ou semelhança de uma vida que imitamos, mas a qual na sua essência e virtualidade, jamais de fato laboramos, cultivamos ou edificamos para a perenidade, inabilitados pela eterna opção da errática trilha que trilhamos.

De que vida falamos? Se quem fala de Paz, calcula apenas que vantagem tirar do lado em que ficar, e quem fala de guerra propala aos quatro ventos que o faz também pela Paz e por democracia, como bens Soberanos e Supremos, assim nos convenceram e nos convencemos,
sem os quais não há padrão de vida nem dignidade que os mereça, sem que a fé na vida se esmoreça! . . .

De que vida falamos? Se na eterna e cínica proposta de boas intenções, há mais sonhos, ilusões e falácias que efetivas realizações e na enorme pirâmide das fartas pretenções, e intenções, não aparecem clara e firmemente, padrões de consistência, coerência, lealdade, constância a princípios e razões, sentido de missão e a “DIGNIDADE HUMANA” permanece então anquilosada, enrijecida, apenas um “palavrão” habilmente guardado nos porões da conveniência ocasional, à espera que o acaso a manipule, a administre em contadas gotas, de escolhidas, consentidas, visionárias e oportunas ocasiões.

De que vida falamos? Do eco . . . eco . . . eco repetitivo , como o guincho, gemido, canto ou cantilena prolongada e dolente, do carro de bois antigo, de rodas maciças, cuja contribuição incontestável pertence agora aos dourados resquícios do histórico folclore, decorando jardins, única serventia prática que lhe resta, empolgando contudo antropólogos, sociólogos, filósofos, historiadores, teólogos, pensadores e ainda algumas poucas e crédulas mentes, da maior sanidade motivadas, e cuja lucidez sabe bem discernir que valores, anátemas ou estigmas herdamos da pré-história da “civilização” humana, os quais precisamos cirandar urgentemente, separá-los, digerí-los, definí-los cristalinamente, compreendê-los holísticamente, inteligentemente, para libertar-nos, para tornar-mo-nos autores, atores e não meros e indefesos espectadores, para não nos acomodarmos a conviver, a viver a ladaínha pachorrenta, repetitiva e irresponsável do atraso, vitimas do eco do nefasto, das ameaças constantes de hecatombe e de uma realidade sociológica lenta, odienta, ilúcida, hipócrita, duvidosa, traiçoeira, insegura, de um cínico equilíbrio constantemente dúbio e frágil, resultado tantas vezes da manipulação tecnológica e “sábia” da psicologia, para alcançar o sucesso da “causa”, da venda, da “carreira”, dos interesses do partido, e tão raramente da pessoa humana. Lucidez necessária para aperceber-mo-nos do que precisa ser salvo, conservado e do que se nos exige transformar, mudar, atualizar, escolher, autenticamente reformar, restaurar, revolucionar. Honestamente buscando imparcialmente ressaltar e resgatar as prioridades da vida e a dignidade humana!

Falemos portanto a linguagem da vida plena, da qualidade da mesma, inteligente, honesta, transparente, livre, dinâmica, corajosa, verdadeira, documentada, de coração e mente abertos à ação, à generosidade do amor, à justiça e reconheçamos o acatamento racional de nossa quota-parte pessoal de participação social na injustiça, à responsabilidade pessoal, quanto à nossa definição e ao futuro, como nos exige a “DIGNIDADE HUMANA” e a PAZ UNIVERSAL.

Criemos, originemos, repitamos alegremente novos e eternos ecos !. . . Trasmitamos, comuniquemos com o exemplo de nossa vida pessoal , esses agora conscientes, agradáveis e mensageiros novos sons, novos, embora sempre tenham estado pairando telúricamente na eternidade dos tempos, ao nosso redor e ao nosso alcance, mas a que não os temos ouvido com vocação cristalina, como têm estado e, a esses sim lhes temos dado ouvidos, os velhos ecos e sons. Ouçamo-los agora com o melhor de nossos dons, imbuídos do espírito santo da VERDADE, seja ela qual seja a verdade verdadeira, mas na pureza e sanidade de nossas mais legítimas, honestas, leais e eficientes proposições, de nossas esperanças, de nossos julgamentos e atos, de nossa intervenção e testemunho consciente, para que sejam para sempre alvissareiros os ecos. . . ecos . . . ecos . . . de boas novas para a humanidade em toda a eternidade das gerações futuras.

Erasmo Figueira Chaves
Análises, Penas, Temas e Lemas

Poemas - Erasmo Figueira Chaves


A casa de São João do Cai

Erasmo Figueira Chaves

A minha casa é aberta,
como abertos são meus braços
a abraçar a quem amo.

A minha casa é aberta
como os braços de uma cruz,
simbólica expressão da fé,
a repousar sacrifícios.

Resplandecente de sol,
é simples, sem artifícios.

Nela não existem cercas
a impedir que alguém entre
a propor de melhor mente,
um coração são e quente.
Nela amigos são presentes,
mesmo quando estão ausentes
e, de inimigos latentes,
de gratuitos imprudentes,
jamais se inferem assentes,
nem ali criam sementes.

A minha casa é aberta
aos aromas do pomar,
às idéias a rolar
anseios de bem estar,
ao diálogo a edificar,
às virtudes a somar
à plenitude do lar,
franqueza de par em par
nas aragens do lugar.

A minha casa é aberta
ao que à Paz vier juntar
a ética e o bem labutar.
Mas ela é também aberta
a quem queira melhorar
o que venha a encontrar
de impróprio, inédito ou vulgar;
franqueio a quem se achegar,
a quem se proponha amar,
pensar, lutar ou criar;
a evitar que se acoitem
vícios, ódio, mal estar
e a juntar a voz aos atos
de justiça e amor impar.

Que essa liberdade seja
o impedimento único
que constranja atrevimento
e produza “advimento”
do melhor entendimento! . . .

Com Adendos: 25/4/2009


. . .Marcos 8:18: “TENDO OLHOS NÃO VEDES,”

Para que serve o poder
Se não vedes a que serve? . . .
Vê-o o Profeta
Vê-o o Poeta
Vê-o o esteta
Vê-o o Asceta
Vê-o o exegeta
Vê-o o mísero na sarjeta
Vê-o em delírio o pateta,
Seja doente ou capeta,
Do jeito que bem quiser.
Até o cego vê bem
Na dimensão do que tem ! . . .
Vê por ver, por querer ver,
Pela lúcida transparência,
Por nela aspirar viver,
Pela vontade de ter
Mensagem a que se ater
Aos desígnios do seu ser,
Num autêntico e constante amanhecer ! . . .
Mas não o vê o dependente da teta
da sinecura, mamata,
sem ética, pleno egoísta,
egocêntrico, leviano,
amigo da insana treta,
do engano, da astúcia, do ardil, do estratagema e da manha.
Portanto, só não vê quem não quer ver
argueiro na própria retina,
Nem palmo à frente do seu nariz,
Ego enrustido e inculto
A perverter e, a corromper-se de estulto,
Tudo em volta, até morrer,
Cálculo e ódio a carcomer
As entranhas do poder,
Engendrado pra Servir,
Mas só usado a servir-se,
Sem perguntar-se da origem
Ao povo, que pouco vê.
(Cento e oitenta “diretores”
Para SERVIR do poder seus detentores,
os oitenta senhores Senadores . . . )
(+ a fanfarra indiscriminada das etéreas viajens aéreas)
Em geral o poder não vê,
A essência, a missão, a transparência,
Em si , nada prevê contra “egrégios seus poderes",
Pois seu exaltado ego não o permite e não quer! . . .
Não orienta ou ensina,
Não educa, nem o prioriza, por tal não ser SOBERANO nem vital,
seu INTRÍNSECO interesse,
(salvo raras exceções em raríssimas ocasiões)
Onde estás austeridade,
a requerer maturidade,
ordem e prioridade? . . .
Onde estás, onde estás, onde te escondes, na presente circunstância? . . .
Por não ter olhos pra ver,
Nem alma para sentir,
nem mente para prever,
nem ouvidos para ouvir,
nem coração a latir,
Por não ter nada a perder
Nessa aura em que se enleva, o poder,
Sem esperar obter
Na vida dentro da vida
A Verdade transcendente, como é lida
Sem consciência inibida.
Insensível como é a luta,
Digna, forte e plena lida,
Como é tão bem concebida,
Sem sentir como ela é tida
Na geração do saber,
Do honesto e do culto conceber! . . .


Erasmo Figueira Chaves
Cabreúva 7/4/2009

DANÇAM “DADOS” A BRINCAR ? . . .
Erasmo Figueira Chaves

“ Deus não joga dados”
Albert Einstein


Os dados que Deus não joga
Por deplorar o azar,
Não reclamam qualquer paga
Sobre a sorte no jogar,
Não sentenciam de toga
Nem se cobrem de pesar,
Pela falta que não traga
Resultados ao rolar,
Só prazer ao ego afaga
Vocação do seu brincar,
No revolto humor da vaga
Nessa paixão aziaga
Que espraia lúdico brindar,
Como vai-vem e descarga
Da espuma branca a orlar
A praia do meu lugar,
Como ação simples de abarga
Sob o sol do imenso mar
Ou prateado luar
A pescar sem se cansar,
Como o bem e o mal à ilharga
Esmorecem, até acabar,
- infalível teriaga
Contra quem não sabe amar,
Como quem espera vaga
Na fila do bem-estar –
Como a fé, esteira ou saga
Vão e vem, além do mar
Com nuances de quem roga
Sem pressa de terminar.
Simples ação que não voga
Nas vagas que Deus mandar.
Não são os simplórios dados
Mas apenas viciados
No vício do mero azar,
Pois vida suspensa em soga,
Pondo em risco o livre arbítrio,
Quer logo se libertar
Sem perguntar se é adarga,
Bálsamo, acinte ou adaga
Pra consciência testar,
Sem ciência do que amarga
A essência que se jogar.


CANAS ABANADAS PELO VENTO

Erasmo Figueira Chaves

ONTEM, PENDIAM TODAS,
CURVANDO-SE SUBSERVIENTES
AO FARFALHAR BARULHENTO
DO VENTO CÁLIDO DA TARDE,
APONTANDO O SEU PENACHO
COMO UMA AGULHA IMANTADA...

(E O SOL A PÔR-SE,
LÁ POR DETRÁS DO RIACHO...)

SEDENTAS, OBEDIENTES . . .


HOJE AO AMANHECER,
EM BARALHAR AGITADO,
IMITANDO O TOM DA VÉSPERA
COM BEM SIMPLÓRIA ATITUDE,
VERGAM-SE DÓCEIS, SEM PEJO,
AOS SOPROS FORTES, ARDENTES,
INDICANDO O SOL NASCENTE,
QUE ONTEM ERA POENTE...


CANAS ABANADAS PELO VENTO
SILVANDO AO SOPRO DOS AIS,
AO SABOR DOS CARDEAIS
PONTOS QUE NAVEGAIS
SEM RUMO,
SEM LEME,
...SEM PRUMO ! ! !


LASSIDÃO.
SÁFARA COLHEITA.
DOCILIDADE SEM SUMO.
MOBILIDADE DE ANÃO.
LIMITES À LIBERDADE
DE OBEDIENCIA SEM CALMA,
SEM TER ORIGEM NA ALMA,
MIRAGEM ESTÉRIL DE OÁSIS
NA IMENSIDÃO DE PROPOSTAS . . .



NÉSCIAS PROMESSAS QUE AMAIS,
QUIMERAS EM QUE ACREDITAIS,
FALÁCIAS VÃS QUE ASPIRAIS,
CONVITES VIS QUE CLAMAIS,
QUANDO EM MEROS VEGETAIS
VOS TORNAIS,
SEM QUE O SINTAIS, OU SABAIS,
...O QUE SÃO CANAVIAIS!...

Ao redor do sentimento

"Homenagem a Fernando Pessoa"

Erasmo Figueira Chaves

Como posso não sentir
Se tal sentir, mais o sinto
Na dimensão de autêntico sentimento,
cuja razão, muito além do meu tormento,
ultrapassa perfeito entendimento.
Pois ". . . nem sei bem se sou eu
Quem em mim sente. . ."
Ou a sentir
Sinto o sentir de toda a gente,
Quando sinto tão profundo
E bem presente,
a sentir perfeitamente
o que sente quem na dor,
ou no Amor,
jamais se nega
ou se mente.

Cabreúva, 21/9/2008
S.P. - Brasil

Cadeira: No. 14

ZEEV TUCHMAJER

Patrono: CASIMIRO DE ABREU



Nasci na Russia em 01/01/1944, de pais poloneses judeus que fugiram para a Russia dos Nazistas.
Em 1946 a família retornou à Polonia, onde moramos até 1950, quando emigramos para Israel.
Moramos em Israel até 1958, quando emigarmos para o Brasil.
Estudei e morei em Nova York, EUA, de 1959 a 1961 numa escola judaica.
Formado em Administração de Empresas pela FASP.
Domino (falo, leio e escrevo) os idiomas português, inglês, hebraico e idiche, Entendo um pouco de polones, espanhol, alemão e italiano.
Comecei a escrever versos em hebraico aos 15 anos.
Tenho poemas escritos em inglês.
Poemas e cronicas em português.
Tive alguns poemas publicados pela extinta revista "O Hebreu".
Membro da Confraria dos Poetas de Porto Alegre, RS desde 1999.

Cadeira nº 14

Luiz Antonio Grieco
Patrono: Ubirajara Casartelli

JACOB

 Zeev Tuchmajer


- Oi vêi (interjeição de cansaço). A cada dia que passa esta porta de aço fica cada vez mais pesada..
- É, minha filha Hana me diz: “Papai, para que você tem que abrir a loja às 7 da manhã; por que não esperar até o João chegar para levantar esta porta pesada? Abrindo ás 8 você também não perde nada.”-Bem, eu não perde nada, mas com certeza também não ganho nada! Além do mais: o que eu vou fazer em casa das 5 até as 8! Ler jornal? Em 5 minutos já li tudo. Chacina aqui, chacina lá; guerra aqui, guerra lá; pegaram deputado roubando. Qual a novidade ? É, a novidade é que pegaram ele, mas só os pequenos. Nem o Corinthians dá mais prazer de ler. Ou perde ou não ganha. Tudo cáliquer ( perna de pau). Além do mais, sempre tem as Marias que compram alguma coisinha no caminho ao emprego.
Jacob levantou a porta, pegou os cadeados, beijou a Mezuza (caixilho pequeno com um pergaminho sagrado, pregado na batente da porta) e entrou na pequena lojinha na Rua José Paulino.
Depois de acender as luzes pegou a vassoura e como tem feito nos últimos 45 anos, varreu a calçada me frente de sua loja, cantarolando algo em Idich. Aprendeu, já não lembrava de quem, que calçada limpa na frente da loja chama freguês.
Parou na porta, olhou para o céu límpido e decidiu que hoje vai ser um bom dia. Toda a sua vida, quando estavam todos com saúde ele acreditava que o dia seria bom.
- “Entra Dona Maria, entra”, disse para uma moça que parou na porta olhando a vitrine. “A senhora ser a primeira freguesa hoje e eu fazer preço especial para abrir caixa”. Apesar de falar um português perfeito após tantos anos de Brasil, quando atendia no balcão sempre falava um português incorreto, pois sentia que as freguesas pensavam que levavam vantagem sobre ele por causa do idioma.
Um pouco antes das 8 começaram chegar os vizinhos, todos coreanos, para abrir suas próprias lojas, todos cumprimentando polidamente. Nesse pedaço de rua só sobrou ele. Alguns amigos já estão com Riboino Shel Oilam (Deus Todo Poderoso). Os outros, como Berl e Itzhak, se aposentaram e alugaram o ponto.
- Nenhum de nossos filhos quis ser comerciante. Na verdade, nem eu quis que meus Froim, Duvid e Khana tivessem a vida dura de comerciante. Nos queríamos que nossos filhos fossem só doctoirim (médicos), advogados ou

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dentistas. Engraçado, os filhos dos coreanos se matam para estarem entre os primeiros no vestibular. Na faculdade se esforçam para se graduar na elite, e depois – cada um vai e abre uma lojinha. Vai entender.
O João chegou as quinze para as oito. Jacob entrou no banheiro. Na hora de lavar as mãos olhou no espelho. Viu um homem franzino, altura mediana, quase sem cabelos, tinha um rosto pouco enrugado mas de aparência saudável, isto apesar de seus 76 anos de idade. Sorriu para sua imagem, os olhos brilhando. Sempre acreditou que um sorriso nos lábios tornava a vida mais fácil, ainda que nem sempre mais alegre.
Às 8:01 chegou a Camila. Sempre chegava um minuto depois das oito, nunca um minuto antes das oito.
-Filha da mãe! Tenho a certeza que ela chega mais cedo no pedaço. Deve se esconder fazendo hora em algum bar por aí e entra sempre atrasada só para me afrontar. Sorte dela de eu ser bom, tolerante e considerando ela não ter pedido aumento nesse último ano, e mais importante, de ter as trompas amarradas. Licença maternidade é muito transtorno e custa caro.
A loja tinha somente 3 metros de largura e 5 de profundidade. No fundo ficava sua escrivaninha donde dava para ele controlar o movimento e levantar rapidamente para atender fregueses quando necessário. O banheiro ficava atrás num canto. Noutro canto uma cortina pendurada servia de provador. Tinha poucas prateleiras com roupa intima feminina e para complementar algumas saias, blusas e calças.
Sentou na escrivaninha e, como toda manhã, olhou com ternura para a foto da família, tirada quando do casamento da sua neta Andréa. A sua Shaindale estava sorrindo, e parecia que era só para ele. Não parecia que já fizera três anos desde que ela faleceu.
-Oi minha Shaindale (minha coisa linda), se você soubesse quanta falta você me faz, não teria ido antes de mim.
Lembrou quando a viu pela primeira vez, foi em 1946. Ele voltou à sua cidade natal Staszew para ver se alguém da família sobreviveu. Encontrou seu primo Leibel, e quando foi jantar com ele conheceu a cunhada desse, a Shaindale. Um a moça frágil, cabelo negro, olhos negros grandes -olhos de quem passou muita fome – braços finos nos quais o número tatuado ficou ressaltado. Foi compaixão que depois de conhecê-la melhor virou paixão.
-Shaindale, cuide de nos todos aqui em baixo até o dia de nos encontrarmos novamente.
Lá pelas nove horas a Khana ligou para saber se estava tudo bem com ele.

 
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Abriu a pastinha e retirou os cheques a serem depositados no dia. Olhou um por um.
-Este aqui esta me cheirando à tchvok ( um caloteiro). Não sei por que fui vender para ele apesar de meu nariz me indicar não fazê-lo. Bem, espero que eu esteja errado.
“João, vai ao banco e depois de fazer os pagamentos e depósitos me tira o saldo.”
“Senhor Jacó, não quer que eu passe no balcão para ver se tem cheque devolvido?”
“Vira esta boca para lá! Cheque devolvido! ‘Tá bom João, dê uma olhada, mas rapidinha.”
Um pouco antes do meio dia entrou na loja um rapaz vestindo um terno e com uma pasta de couro novinha na mão. Dirigiu se até a Camila, lhe disse algo e está apontou para o Jacob.
-Um Khaper (fiscal)! Estou cheirando um Khaper - e logo já foi se curvando um pouquinho fazendo uma cara triste e abatida.
“O senhor é o proprietário da loja ?”
“Quem quer saber ?”
“Eu sou da Secretária da Fazenda do Estado” e já foi tirando do bolso interno do paletó o documento que o identificava.
“Em que posso ajudá-lo Sr ?....Sr. ?.....”
“Meu nome é Dr. Francisco Alves Figueira e eu fui designado para fiscalizar a sua empresa. E o senhor é ?.. ”
- Olha ele, olha como fala! Aqui no Brasil qualquer shmendrik (pivete) é logo um D-o-u–t–o–r.
“Dr. Figueira, primeiro não vamos exagerar, empreeesa. Empresa é Petrobrás, Light, Volkswagen. Eu só tenho uma pequena lojinha. Eu sou Jacob Cohen.”
“Bem Sr. Jacob, eu vou precisar dos livros fiscais. Quem é o seu contador ?”
Depois de fazer o termo de abertura e de pegar o endereço do contador, despediu-se dizendo que vai voltar em uma semana.
O Jacob ligou imediatamente para o seu contador, e quando este atendeu: “Flávio, aqui é o Jacob Cohen. Tem um fiscal indo para ai pegar os meus livros. Fala para ele que eu sou muito velho, pobre e doente e vê logo se ele quebra galho.”
Apesar de já ter a experiência de passar por muitas fiscalizações, foi uma semana de agonia. Dormiu mal, comeu pouco, pois com fiscal - especialmente

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um que parecia ter começado na Secretaria recentemente – a coisa podia ficar feia.
Na quarta feira, no meio da manhã, eis que aparece o fiscal. O Jacob pensou logo: Mal sinal, quarta feira não é um dia de sorte. Se fosse terça ou quinta.....
“Como vai Dr.,....ehhhh.....Dr.?”
“Francisco” respondeu o fiscal.
“Dr. Francisco, Dr. Francisco, é isso. Então, tudo em ordem? Vai assinar os livros?”
“Um minutinho, Sr. Jacob. Há uma discrepância entre o que apurei nos livros e o que vejo na loja. Assim à primeira vista devia ter muito mais mercadoria. O Sr. Podia explicar?”
“Discrep... oooo que?”
“Discrepância, diferença, os números não batem.”
“Eu não entendo. Eu trabalho tudo ceeeem per cento. Compra tudo com nota, vende tudo com nota.”
“Bem. Então vamos fazer um levantamento.”
“Para que levantamento Doutor,vamos perder tempo. Enquanto faz levantamento - eu não vendo; o governo deixa de ganhar impostos. O senhor sabe, eu sou velho e já não enxergo tão bem. Ás vezes as freguesa rouba e eu não consigo ver. Vem muita mercadoria com defeito e eu dou para caridade. Claro que vai faltar mercadoria.”
“Mas esta mercadoria também tem que tirar nota”, disse o fiscal.
“O senhor quer que eu dar nota para ladrão!?”
“Sr. Jacob, claro que não, mas para instituições de caridade, sim.”
“Ah, eu não sabia! Agora eu já sei, obrigado.” Disse Jacob.
“Sr. Jacob, infelizmente eu vou ter que aplicar uma multa.”
“Dr. Francisco, para que multa? Não da para dar um jeitinho?”
“Sr. Jacob, o senhor sonegou, dinheiro este que vai para escolas, saúde e outras coisas.”
“Dr. Francisco, eu não soneguei. Eu só peguei antecipado o que o governo me deve.”
“Como, o que o governo lhe deve. É o senhor que deve ao governo.”
“Dr. Francisco, o senhor sabe quanto tempo demora o governo devolver impostos, haa? O senhor não disse que o governo dá o dinheiro para escola e saúde? Então, eu vou dar dinheiro ao governo. Depois o governo tem que devolver para mim para a escola de meus filhos e netos. Aí eu pensei: para que

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todo este trabalho? Eu pego o dinheiro e pago sozinho a escola. A mesma coisa com a saúde. Eu pago sozinho o plano de saúde. È menos papelada, menos trabalho para o governo, menos funcionários. O governo faz economia e eu não preciso esperar anos para governo devolver o meu dinheiro para pagar educação e saúde. Eu não soneguei, só adiantei a minha parte!”
“Sr. Jacob, mas não é assim que funciona! Imagina se cada cidadão fizer a mesma coisa. Vai faltar dinheiro para o governo.”
“Dr. Francisco, não é o senhor não, mas se desperdiça (rouba) muito dinheiro no governo (tudo ladrão). Então, se tem menos dinheiro, desperdiça (rouba) menos. Olha doutor., eu tenho 76 anos e quero trabalhar. Eu não sou empresa mas dou trabalho para duas pessoas – registradas! O senhor quer dar multa, o senhor pode. Mas, então..... aqui esta a chave da loja. Eu vou embora e deixo para o governo pagar Camila e João. Já estou ficando muito cansado mesmo.”
“Sr. Jacob, eu vou estudar o caso e volto amanhã.”
“Doutor, para que estudar? o senhor já é doutor. O senhor já sabe tudo!”
“Ah, meu Deus, o senhor não está facilitando para mim. Está bem, está bem Sr. Jacob. Vou aplicar uma multa pequena; alguma coisa vou ter que multar, mesmo que só simbólica. O Sr. sabe, para mostrar serviço lá na Secretária. Vou mandar o ofício ao seu contador. Adeus Sr. Jacob.”.
“Muito obrigado, Dr. Francisco! Muuuito obrigado!!! O senhor é muito bom. Deus o Abençoe.”
O Dr. Francisco vai em direção à porta da loja.
Correndo para a porta atrás do fiscal: “Dr. Francisco, Dr. Francisco!”
O Dr. Francisco virando com surpresa: “Sim, Sr. Jacob?”.
“Quando chegar Natal, o senhor passa aqui que eu dou presente para sua esposa e para sua filha. Ta bom?”
O Dr. Francisco abre um sorriso e diz: “Não precisa, Sr. Jacob, mas muito obrigado assim mesmo. Adeus”.
“Deus que o conserve, Dr. Francisco”. (looonge de mim!).
Mais um Khaper (fiscal) superado. Graças a Deus!Deus me ajude nunca mais ver um novamente até o resto da minha vida!!! Amem! Mas, se precisar,vamos começar tudo de novo! Oi vei.